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terça-feira, 26 de maio de 2009

SÉRIE: Cinquentenário do Estádio do Restelo - Capítulo I - 4ª parte

Capítulo I: Antepassados do Estádio do Restelo
4ª parte: o adeus às Salésias


No seguimento do «ultimato» de 1946 não foi fácil nem pacífica a escolha do local para o novo estádio do Belenenses, como veremos detalhadamente no capítulo seguinte.

Quando em 1948 ficou finalmente resolvida a questão, iniciou-se uma verdadeira corrida contra o tempo, uma vez que o prazo estabelecido para o abandono das Salésias (6 anos) aproximava-se a passos largos… e a tarefa de erguer o novo complexo, como também veremos adiante, parecia ciclópica.

A vitória no Nacional de futebol de 1945/46, por sua vez, elevou ainda mais as exigências. Em virtude do final de carreira de muitos dos jogadores campeões - em muitos casos prematuro e até triste, como no caso de Mariano Amaro - a forçosa e difícil renovação do plantel significou o início de um novo ciclo. É certo que a nova «sementeira» já prometia: logo na época de 1946/47 o Belenenses conquistou o seu primeiro Campeonato Nacional de Juniores. Por outro lado e na mesma altura surgiram as escolas de futebol (ainda pioneiras), sob a orientação do campeão Artur Quaresma.
Mas a equipa de «Honra» ressentiu-se.

Na época seguinte (1946/47) obteve «apenas» o quarto lugar, a 14 pontos do líder. A época de 1947/48 até foi mais satisfatória, com luta pelo título (o Belenenses terminou em terceiro, a apenas 4 pontos do primeiro) e a presença na final da Taça de Portugal. Porém essa mesma final ficaria marcada pelo desolador impedimento de última hora do capitão Amaro (capitão do Belenenses e da Selecção Nacional, note-se), acometido de doença grave. Transtornada, a equipa falhou a oportunidade (com derrota por 3-1 frente ao Sporting). Para cúmulo, o mítico treinador argentino Alejandro Scopelli (para sempre Belenenses do coração) viria a ser despedido em circunstâncias pouco agradáveis.

Nas três épocas seguintes a situação da equipa agravou-se progressivamente e, em simultâneo, acentuavam-se as dificuldades financeiras. Depois de novo terceiro lugar na época de 1948/49 (a 7 pontos do primeiro), seguiu-se um quarto lugar na época 1949/50 (a 18 pontos do primeiro) e um 9º lugar em 1950/51 (a 21 pontos do primeiro), a pior classificação do Belenenses até aquela data.

Os tempos eram outros. O profissionalismo, não muito antes considerado vergonhoso, passou a padrão vulgar. Em consequência - e embora não fosse propriamente novidade (muito menos no Belenenses) - o recrutamento de talentos além-fronteiras (com preferência para goleadores) afigurava-se como uma vantagem competitiva fundamental. O Belenenses tinha de reagir.

O Belenenses reagiu… e bem. Depois de ter conseguido suportar as graves dificuldades financeiras - com rigor e notáveis sacrifícios - recuperou a audácia que tão bem lhe assentava desde nascença. No dia 5 de Maio de 1951 inaugurou uma importantíssima delegação na Avenida da Liberdade (nº 105 – 2º andar), em pleno coração de Lisboa. Embora não fosse a primeira da sua história, viria a ser a mais emblemática e bem sucedida de todas. A sua situação era de tal modo vantajosa que o Clube transferiu para ali os seus serviços de secretaria, instalando também um serviço médico. Tudo isto para estar mais perto de mais adeptos, mas também de boa parte dos seus atletas.

No futebol, a «revolução» teve alcunha… um nome que o futebol português jamais esquecerá: em Setembro de 1951 fez a sua estreia Sebastião Lucas da Fonseca, mais conhecido como «Matateu». O ingresso do «Diamante Negro» foi um decisivo ponto de viragem, mais tarde complementado com a chegada de outros jogadores lendários como o argentino Di Pace (Matateu afirmaria, décadas mais tarde: «Eu fui um marcador de golos, mas o Di Pace é que foi o maior de todos») e o não menos genial Vicente Lucas (irmão mais novo do Matateu).
As Salésias recuperaram a euforia de outrora, inebriadas por um futebol mágico e arrebatador que de novo arrastava multidões.

Entretanto, noutras áreas do Clube, devemos assinalar ainda:
- a inauguração de uma nova e impressionante Sala de Troféus, por ocasião do 34º aniversário;
- a criação de uma pista de ciclismo nas Salésias (sem custos para o clube), devidamente acompanhada por um fulgurante regresso às competições, com destaque óbvio para a Volta a Portugal;
- as brilhantes vitórias no atletismo, com a conquista de vários campeonatos por equipas (femininos), vários títulos individuais e o estabelecimento de inúmeros recordes. À cabeça do sucesso, um nome para nunca esquecer: Georgete Duarte.
E, mais importante ainda, o novo estádio tornava-se realidade. Devido aos compreensíveis atrasos no arranque e execução da obra (como veremos adiante), o Belenenses conseguiu o adiamento do severo prazo imposto pela CML para o abandono do Estádio José Manuel Soares. 1956 seria o ano do adeus.

Como a saudade não consegue muitas vezes virar costas à tristeza, quis o destino que entre as últimas recordações das Salésias se intrometesse um episódio amargo… talvez o mais amargo da história do Belenenses.

Provida de jogadores fenomenais (como os que referimos atrás – Matateu, Di Pace ou Vicente), a equipa de futebol chegou à última jornada do Campeonato Nacional de 1954/55 em primeiro lugar...

...com um ponto de vantagem sobre o segundo classificado, o Benfica. O Belenenses deveria levar de vencida o Sporting, já que a vitória do Benfica no seu jogo (frente ao Atlético) parecia mais que certa. Esta mesma certeza ditava que os sportinguistas já não tivessem qualquer esperança de ser campeões, mesmo que derrotassem o Belenenses (ficariam a um ponto dos «encarnados»).

O desfecho foi terrível. A poucos minutos do fim do jogo, o Belenenses vencia por 2-1 e já se fazia a festa nas Salésias. O resultado já deveria ser mais dilatado, uma vez que o árbitro preferiu ignorar um lance em que o guarda-redes leonino defendeu um remate de Matateu… para além da linha de golo. O juiz de linha correu para o centro do terreno. O próprio guardião do Sporting viria a reconhecer que tinha sido golo. Mas de nada valeram as desesperadas súplicas do «Diamante Negro». Quando já só restavam apenas quatro minutos, o Belenenses sofreu o golo do empate numa jogada absurdamente simples.
Consumada a vitória do Benfica, as Salésias inundaram-se de lágrimas.

Como consolação, a conquista da segunda Bola de Prata por Matateu (que já havia conquistado a primeira de todas, dois anos antes) e a participação na prestigiada Taça Latina, a maior competição a nível europeu de então. O Belenenses não conseguiu levar de vencida em Paris os poderosos Real Madrid (que venceria nas épocas seguintes as primeiras cinco edições da Taça dos Campeões Europeus) e AC Milan… mas também a Europa rendeu-se a Matateu.

O título de 1955/56, última época completa nas Salésias, foi para o Futebol Clube do Porto (cuja última conquista datava de 1940), terminando o Belenenses em 3º lugar.
Ainda ensombrados pela tremenda desilusão de Abril de 1955, assim foram os últimos dias no já saudoso campo.

O último encontro internacional decorreu a 31 de Maio de 1956, frente ao Sevilha, que curiosamente havia sido o adversário no primeiro, 35 anos antes.
O último jogo do Belenenses no Estádio José Manuel Soares realizou-se na primeira jornada do Campeonato Nacional, a 9 de Setembro do 1956. Praticamente cumpridos 29 anos sobre o primeiro jogo oficial ali realizado, após a conquista de centenas de títulos em diversas modalidades, cerca de vinte mil Belenenses acenaram adeus às Salésias presenciando uma vitória por 4-2 frente ao Atlético.

No dia 23 de Setembro seguinte, data da inauguração do novo estádio, o Clube fez a despedida formal. Às 11 horas da manhã foi prestada homenagem a José Manuel Soares, o «Pepe», cujo monumento só mais tarde seria trasladado para o actual local. Seguidamente coube ao Presidente da Direcção arrear a bandeira e dar início ao numeroso cortejo em direcção ao Restelo, afastando-se derradeiramente a multidão do mágico recinto que tantas vezes havia colorido de alegria em azul.

O destino final das Salésias foi bem cruel para a saudade Belenense. Afinal nunca se ergueram prédios de habitação sobre o relvado que certos génios impregnaram de recordações maravilhosas. Não se fizeram jardins sobre o comprimento da pista que desafiou velozes campeões. Volvidas seis décadas sobre a sua sentença, as Salésias não foram afinal «imoladas às exigências do plano de urbanização da Capital do Império». Foram imoladas sim, mas para dar lugar a nada.
O campo ainda lá está… sem relva que se veja. Conserva umas velhas balizas, quais esqueletos fantasmagóricos. Ainda se vislumbra a velha pista de cinza, agora moldura de um baldio. No peão, barracas. No lugar da grande bancada, uma vaga ruela.

Recentemente (entre 2000 e 2004) a Direcção do Clube promoveu romarias ao local do antigo estádio (incluindo a realização de treinos simbólicos) no âmbito das comemorações de aniversário do Belenenses. O propósito foi o de homenagear campeões do passado, mas também sensibilizar os proprietários (Casa Pia de Lisboa) e a Câmara Municipal para que o espaço pudesse ser recuperado para o desporto. Ao que parece… em vão.
Numa das romarias, em 2002, foi descerrada uma placa que lembra o que pode: «C.F. OS BELENENSES / ESTÁDIO DAS SALÉSIAS / 1º CAMPO RELVADO DE PORTUGAL / 29-1-1928 A 09-09-1956».

No Restelo é ainda o monumento ao Pepe que melhor recorda aquele passado glorioso. Assim já o desejava Acácio Rosa em 1952:
«Mantém-se viva a nossa saudade – que será eterna – e a sua figura, o seu nome, a sua imagem hão-de acompanhar-nos das Salésias – Estádio José Manuel Soares – para o Restelo, porque a vida deste garoto, - e que grande jogador! – personifica a chama do idealismo e o fervor da fé belenense.»

30 anos depois da estreia de José Manuel Soares, caberia ao novo herói do «povo» azul (Matateu) abrir com a mesma chave de ouro a nova porta para o futuro do Belenenses… no Estádio do Restelo.

SÉRIE: Cinquentenário do Estádio do Restelo - Capítulo I - 3ª parte

Capítulo I: Antepassados do Estádio do Restelo
3ª parte: glória e ameaça sobre as Salésias


No final da década de 30, o Estádio José Manuel Soares era a «sala de visitas» do futebol português. Era, com toda a naturalidade, a «casa» da Selecção Nacional. E em 25 de Junho de 1939...

...coube-lhe nova e grande honra: jogou-se ali a primeira final da Taça de Portugal (vencida pela Académica de Coimbra).
Cumpre destacar que até à inauguração do Estádio Nacional (em 1944) as Salésias também foram uma verdadeira «casa» da Taça de Portugal, tendo sido o palco de 5 finais (a última delas a 1 de Julho de 1945). A título de curiosidade, foi numa das duas finais que não se realizaram nas Salésias (mas sim no estádio do Lumiar) que o Belenenses venceu a sua primeira Taça de Portugal, como veremos adiante.

Era assim um estádio familiar às multidões. Veja-se outro exemplo, este ocorrido ainda em 12 de Fevereiro de 1939: para corresponder à afluência de um Portugal-Suíça o estádio passou a dispôr de mais 5 000 (!) lugares no peão.

Em 1940 foi inaugurado um evento que alterou radicalmente a zona ribeirinha de Belém: a Exposição do Mundo Português. Parecia passar ao lado do Belenenses, que conservava as Salésias. No entanto não era bem assim. Era um sinal do frenesim que ocupava urbanistas e construtores na renovação de Lisboa. Pouco prometia ser poupado e os estádios de futebol estavam longe de ser excepção.
Desde logo e por causa da Exposição o Casa Pia teve de deixar o seu Campo do Restelo, dando lugar a um efémero parque de diversões anexo ao recinto do evento: não mais voltaria a Belém. Isto embora o Belenenses, solidário e fraternal, tivesse oferecido o seu estádio para que os «gansos» pudessem continuar a jogar - retribuição de tantos outros gestos passados. Aqueles encontraram mais tarde nova «casa», mais longe, do outro lado de Monsanto (o seu actual Estádio Pina Manique). A ameaça ao próprio Belenenses parecia adiada. E em frente seguiu.

Ainda em 1940, a pista de atletismo foi beneficiada e o Belenenses chegou a acordo com a Associação de Atletismo de Lisboa para que todas as suas provas oficiais se passassem a realizar exclusivamente no Estádio José Manuel Soares.

A sede do Clube, entretanto, «deambulou» pela Rua de Belém (nº 48), pela antiga Travessa da Praça (nº 8) já em 1942, até que em 1943 «parou» pelo nº 534 da Rua da Junqueira (na esquina com a Calçada da Ajuda).

Em termos de resultados, sereno mas pujante, o Clube granjeou renovados brilharetes. Em 1942, conquistou a primeira Taça de Portugal em futebol. Foi caso para dizer que à terceira foi de vez, já que nas duas finais anteriores o Belenenses havia sido a equipa vencida. Em 1944 conquistou o seu 5º Campeonato de Lisboa. Em 1945 (15 de Maio) a equipa de futebol brilhou em Madrid perante o Real (empate a duas bolas) e fez história no encontro de retribuição (31 de Maio), batendo os espanhóis nas Salésias com um golo de Rafael.

Mas nem só de futebol se engrandeciam os azuis. Nas restantes modalidades sucediam-se as honras, mas também os sacrifícios. Como por exemplo em 1941, quando Acácio Rosa, num de muitos seus gestos de confesso amor pelo ecletismo, pagou do seu bolso a iluminação do campo de basquetebol, inaugurado um ano antes! Em 1945, outro marco da sua «chancela»: a realização do primeiro jogo internacional de Andebol no país.

No Atletismo, Natação, Ciclismo, «Rugby», Basquetebol, Andebol, Hóquei em Campo, Ténis ou Ténis de Mesa... das fileiras do Belenenses destacavam-se campeões e recordistas nacionais, alguns deles para sempre consagrados como referências do desporto português.

Mas o Clube tinha reservado para si um feito mais estrondoso ainda, na modalidade «rainha». Já senhor de três Campeonatos de Portugal, uma Taça de Portugal e cinco Campeonatos de Lisboa, avançou para a época futebolística de 1945/46 com as maiores expectativas, que não foram goradas: o Belenenses sagrou-se pela primeira vez Campeão Nacional da 1ª Divisão de Futebol, para além de ter conquistado o seu sexto Campeonato de Lisboa. A supremacia!

O país ficou a saber afinal que nas Salésias estavam três «Torres de Belém» a guardar o Tejo: Capela, Feliciano e Vasco de Oliveira (com Serafim das Neves, por vezes, a fechar um «quarteto»). Três baluartes transformados em formidável muralha defensiva. Como médio direito, um «Einstein da bola», assim chamaram o genial Mariano Amaro. A estes juntavam-se os vitoriosos campeões Francisco Gomes, Artur Quaresma, Armando Correia, Rafael Correia, Manuel Andrade, José Pedro Bazaliza, António Elói, Mário Coelho, José Sério, Francisco Martins, Mário Sério e António Martinho.
A comandar esta «constelação», o primeiro treinador português a conseguir conquistar um campeonato nacional: Augusto Silva.

Com todos os jogos em casa disputados nas Salésias, só um deles não resultou em vitória (empate frente ao Atlético). Contra a Oliveirense, houve golos com fartura: 10-0...

Mas, a propósito, lembramos que o «record» do conjunto dos Campeonatos Nacionais e Primeira Liga fora estabelecido na época anterior… numa vitória do Belenenses sobre a Académica de Coimbra por 15-2! Mais uma marca histórica do futebol português «fabricada» nas Salésias, que se mantém insuperada até hoje.

À beira de completar 30 anos de história, o Belenenses colocava-se definitivamente no pedestal dos grandes do desporto português. Com as vitórias no futebol, naturalmente, cresceu a massa adepta. Já em 1933, por altura da conquista do terceiro Campeonato de Portugal (mais do que qualquer outro clube conseguiu até então), havia sucedido algo semelhante.

Entre 1942 e 1944, pese a fraca clasificação do futebol neste último ano (um 6º lugar, até então a pior classificação de sempre, preocupando seriamente os dirigentes), a Direcção do Clube podia orgulhar-se de ter quase triplicado o número de sócios contribuintes, de 1721 para 4185. O objectivo seguinte seria chegar aos 5000 sócios. Com a valia da equipa e os triunfos, pareceu até banal (mas não o foi, claro): em 1945 contavam-se 6793 sócios, em 1946, 8498 sócios (!) e em 1947, 9125 sócios! Em 5 anos o Belenenses conseguiu mais do que quintuplicar o seu número de associados!

Por outro lado, a presença de adeptos Belenenses no resto do país (e até no estrangeiro) não parava de aumentar. Quase 20 anos depois do aparecimento dos primeiros clubes filiados, em 1946 eram já 39 as filiais e delegações!

Com tamanho afluxo de novos «Beléns», os dirigentes sentiam crescer as responsabilidades do Clube. Era preciso manter o nível competitivo do futebol mas também atender à prática desportiva em geral. Assim sendo projectaram-se novas valências para o parque desportivo.

Logo em Maio de 1946 – quase em simultâneo com a conquista do Campeonato Nacional de futebol – o Clube remeteu à Câmara Municipal de Lisboa um pedido de autorização para efectuar melhorias no complexo, onde se incluía a construção de um ginásio coberto destinado aos filhos dos sócios. A resposta da edilidade chegou através de despacho publicado no Diário Municipal, no dia 17 de Junho seguinte.

No referido despacho era concedida a autorização para tudo o que havia sido requerido, com um senão. E que senão! A Câmara Municipal de Lisboa notificou o Belenenses de que só poderia dispôr das instalações desportivas das Salésias por mais seis anos, findos os quais teria de abandoná-las! Assim, sem mais nem menos, qual faca apertada à garganta!

Após 20 anos de labor, enlevo e obra feita sem par, o Belenenses, que por ironia e inocentemente propunha novas melhorias, viu-se na iminência de ser despojado de tudo.
Como veremos no capítulo seguinte, a intenção de «deslocar» os estádios de futebol (não só as Salésias) não era nova. Mas o momento e a forma deixavam transparecer outras intenções, falando-se de invejas alheias causadas pelo notório sucesso e crescimento do Clube em todas as frentes.
Pouco depois veio a saber-se qual era a real intenção da Câmara Municipal: dar passo à urbanização da zona. Mas por ora, no presente capítulo, trataremos de acompanhar o que foi feito do Estádio José Manuel Soares, até ao dia em que teve de ser efectivamente abandonado pelo Belenenses.

Perante aquela aberrante contingência, quase todas as melhorias previstas acabaram por ser descartadas, sendo assim evitada despesa inútil… que poderia fazer falta para a solução do novo campo desportivo. No entanto, por entender ser da maior premência e benefício, o Belenenses persistiu na construção do ginásio coberto, que viria a ser inaugurado em Janeiro do ano seguinte.

Ainda em 1947, enquanto o Belenenses sofria pelo destino da sua «casa», surgiu o convite para ser visita de honra na inauguração da «casa» de outrém. Não era um convite qualquer de um clube qualquer. O poderoso Real Madrid, reconhecendo o Belenenses como clube cimeiro em Portugal – mas também já como velho amigo – queria a sua presença na estreia do seu novo Estádio de Chamartin.

A 14 de Dezembro desse mesmo ano cumpriu-se o inolvidável privilégio, com uma exibição de gala que deixaria Madrid deslumbrada pelos azuis de Lisboa. O resultado final foi uma derrota por 3-1 (depois dos sucessos de 1945), mas o «caseirismo» do árbitro do encontro e a impressionante valia do Belenenses não passaram despercebidos à própria (e exigente) imprensa do país vizinho.

Curioso, irónico. Defrontaram-se as mais fortes equipas dos dois lados da fronteira. Uma inaugurava o maior estádio da Península. A outra, o Belenenses, iria perder o seu… ainda sem certezas quanto ao futuro.

SÉRIE: Cinquentenário do Estádio do Restelo - Capítulo I - 2ª parte

Capítulo I: Antepassados do Estádio do Restelo
2ª parte: as Salésias - Estádio José Manuel Soares

Em 6 Novembro de 1927 o Belenenses cumpriu a primeira parte daquilo a que se tinha proposto como afirmação de grandeza e vitalidade: inaugurou a sua sede na Rua da Junqueira (nº188 – 1º).

Funcional e bem apetrechada, dispunha de secretaria, um gabinete para a Direcção, sala de bilhar, sala de honra, sala de comissões, sala de jogos, sala de ping-pong e «bufete». Na ocasião distinguiram-se pelo seu suado trabalho: Joaquim d´Almeida, Jaime Alves, Henrique Chelmike, Júlio Crespo, Joaquim Rio, Miguel Buttuler, Manuel Barros e Alfredo Barros Ramalho. Note-se que dois deles eram jogadores do primeiro «team» de futebol…

Faltava ainda o campo próprio, mas os trabalhos, também pela mão de consócios, não cessavam…

O grande dia chegou no ano seguinte. Pelas palavras de Acácio Rosa:
«Alma de Almeida na construção do campo: Após esforços e sacrifícios de toda a ordem, tendo como alma criadora de todos os trabalhos o seu jogador Joaquim d´Almeida (a «Alma de Almeida»), o Belenenses inaugura as Salésias a 29 de Janeiro de 1928, num encontro com o Carcavelinhos para o campeonato de Lisboa».

Ribeiro dos Reis, figura proeminente do desporto e da F.P.F. (para além de posterior co-fundador do jornal A Bola) escreveu a propósito: «Não obstante a chuva que caiu durante a noite, o terreno de jogo estava excelente, o que demonstra o cuidado que presidiu à sua construção. O rectângulo do jogo é amplo e desafogado. O plano inclinado para os peões é o mais vasto de todos os nossos campos e, quando devidamente acabado, deve, em dias de grandes enchentes, produzir um magnífico aspecto. O campo ainda não tem bancadas. Provisoriamente foram utilizados para o efeito uns bancos corridos ao longo do «touch».»

Saiba-se ainda que o primeiro jogo foi disputado entre o Bom Sucesso e o Sporting, às 13 horas. O Belenenses estreou o seu campo às 15, vindo a vencer o Carcavelinhos por 4-2.

A reter, um nome indelével: Joaquim de Almeida. Jogador campeão, eclético, com as suas próprias mãos trabalhou na construção do campo (como já o tinha feito para a nova sede), até ao último dia, até ao último momento antes da inauguração. E não se esgotou nesta ocasião o contributo deste grande atleta em prol do Belenenses.
O Clube pulsava com os corações das gentes de Belém. Quando a equipa jogava fora, um dos jogadores mais queridos no bairro (Azevedo) largava um pombo-correio que diligentemente levava as notícias de vitória a casa, onde aguardavam os vizinhos, suspensos de ansiedade. Para levar os equipamentos Clube tinha ao serviço um burrico, que saía das Salésias, de madrugada, com a sua carroça (a Carris não autorizava o transporte). Pitorescos, por certo, estes retratos de uma dedicação extraordinária.

Não tardou o novo campo em ser consagrado com novos títulos: na época de 1928/29 o Belenenses conquistou os Campeonatos de Portugal e de Lisboa.
Com o desafogo, ensaiaram-se novas modalidades: surgiram o «Rugby», o Hóquei em Campo, o Ténis de Mesa e as aulas de Ginástica. Pouco depois o Andebol e mais tarde o Basquetebol. As Salésias acolhiam também, com carinho, o ecletismo.

O labor não cessou. Para erguer as bancadas em falta, a Direcção nomeou uma «Comissão de Melhoramentos», composta por Joaquim d´Almeida (de novo), Vital Jorge de Sousa, Jaime Alves, Fernando Nunes e Luís Teixeira… que não tardou muito em mostrar obra: em 21 de Junho de 1931 foram inauguradas bancadas em cimento armado. Obra pioneira, que os outros grandes clubes haveriam de esperar vários anos para ter igual – as suas bancadas eram ainda feitas de madeira.

Cada vez mais modernas, as Salésias depressa se fizeram mítico campo de glórias, albergue de novos e ímpares talentos do desporto português. Um deles, José Manuel Soares (mais conhecido como o «Pepe» - ídolo nacional, jogador de categoria internacional), viria a falecer em trágicas circunstâncias em Outubro de 1931, lembrando amargamente que a par das brilhantes vitórias caminhava uma teimosa sombra de infortúnio. Em 23 de Setembro de 1932 (aniversário do Clube) foi inaugurado um monumento nas Salésias em sua honra, da autoria de Leopoldo de Almeida e custeado por subscrição pública nacional. Vivia-se o luto, mas não mais se esqueceria o Pepe. Mal se sabia então, mas o monumento do «Pepe» estaria destinado a ser pétrea testemunha de uma era…

As melhorias nas Salésias, contudo, multiplicavam-se - qual recrudescida reacção perante a adversidade. Durante as gerências de 1932 a 1936 completou-se mais uma série de obras no campo (que já então passou a ostentar o nome do malogrado «Pepe»):
- Sobre a bancada central, prolongada em 50 metros, foi aberta uma bancada para os sócios, com lugares sentados e camarotes;
- Foi inaugurada a pista de atletismo em cinza, que pelo juízo da Direcção seria a melhor do país. A condizer, disputa-se o 1º torneio «Madrid-Lisboa»;
- Construiram-se cabines para os árbitros, arrumação dos equipamentos e o posto médico.

Em 1933 e em reconhecimento do seu valoroso serviço em prol do desporto, o Belenenses recebeu do Presidente da República a mais alta condecoração concedida a clubes desportivos...

...sendo agraciado como «Comendador da Ordem Militar de Cristo». Com novo Campeonato de Portugal conquistado, foi ano de especial rejúbilo. Em 1935, outra alta condecoração atribuída: «Oficial da Ordem de Benemerência».

O Campo «José Manuel Soares» era então o estádio com maior lotação de Lisboa. Em 22 de Março de 1936, mais uma obra de relevo: o Belenenses inaugurou as coberturas, tornando-se assim no primeiro clube a dispôr de bancadas cobertas. Enquanto decorriam as obras e estando impossibilitada a utilização do campo, um belo gesto para recordar: o Casa Pia cedeu graciosamente as suas instalações. No criterioso supervisionamento das obras, outro devotado dirigente: Salvador do Carmo. Entretanto e nesse mesmo ano faleceu João Luís de Moura, a quem se deveu a conquista das Salésias.

Ainda em 1936, a 16 de Dezembro, foi assinado um contrato com a Fazenda Pública permitindo a utilização de mais 9.800 m² de terreno com vista à construção de um campo de treinos. O Belenenses crescia.

Em 27 de Janeiro de 1937, porém, novas dificuldades. Um ciclone assolou Lisboa e destruíu por completo as coberturas das bancadas e camarotes. Não se detiveram em desânimo os Belenenses. Logo a 19 de Fevereiro principiaram as obras de reconstrução. Mas trabalhava-se em mais, adivinhava-se mais deslumbre.

Em 24 de Abril de 1937 ressurgiu, renovado e esplêndido, o Estádio José Manuel Soares, já incontestavelmente o melhor do País. Não só estavam reconstruídas as coberturas, como se construíra uma bancada de 3 metros em redor do campo; as instalações sanitárias e as cabinas dos atletas foram dotadas de condições de higiene e conforto nunca dantes vistas; estava pronto o campo secundário de treinos, algo raro ou único… mas mais que tudo isso, uma outra novidade era de pasmar: o Belenenses apresentava o primeiro campo relvado de Portugal!
Não havia igual, e disso deu conta a revista «Stadium», poucos dias depois (28 de Abril):

«A inauguração do estádio José Manuel Soares foi caracterizada pela imponência e brilho que o público emprestou à pugna Belenenses-Benfica, na qual os donos da casa arrancaram a vitória. Tarde de emoção e de consagração, ao esforço dos que pelo desporto muito fazem!!!

É imponente, tudo isto. O rectângulo verde, dum verde macio que faz bem à vista, que permite ver bem o que se passa em redor. Depois, um rectângulo complementar, cor de tijolo, que forma um contraste que realça ainda mais a mancha verde do tapete de relva. Em volta, como sulco aberto na cercadura de tijolo, a fita preta da pista de atletismo. O gradeamento, em branco e azul, dá ao terreno o aspecto curioso dum grande ring com o público debruçado sobre o campo de luta. Num dos lados, os gradeamentos limitam os alçapões de mágica por onde os jogadores aparecem e desaparecem…

A toda a volta, mas especialmente do lado da geral, um mar de cabeças, um mar que ainda não entrou em animar-se… Tranquilo, por enquanto. Um vento de bonança que talvez não chegue a acompanhar a ventaneira desenfreada que sopra nos camarotes… No topo de nascente - uma nota de cor, cor de rosa… São os pequenos do Asilo NunÁlvares, companheiros do Belenenses no aproveitamento da cerca do asilo. Há quem nos diga que o Belenenses vai oferecer bibes azuis à pequenada. Assim, estão melhor. A cor-de-rosa é a cor dos sonhos ainda ingénuos. E dá mais alegria ao campo quando os pequenos se agrupam para ver o jogo.»

Afixaram-se no Estádio placas que assinalavam a efeméride. Uma delas apelava ao orgulho dos sócios: «Belenenses Honrai o Símbolo do Nosso Querido Clube». Uma outra, com justeza, perpetuava gratidão: «Este campo foi mandado arrelvar pela direcção da F.P.F.A. de 1936/37. Dirigiu o arrelvamento o agrónomo J. McInroy (Os Belenenses agradecidos) em 24-4-1937».

O país pareceu render-se à nova maravilha do desporto português. A 9 de Janeiro de 1938 realizou-se o primeiro de muitos jogos da Selecção Nacional ali disputados. A 30 de Outubro do mesmo ano coube ao Belenenses a honra de receber no seu estádio o Festival Desportivo de Comemoração das Bodas de Ouro do Futebol em Portugal: cumpriam-se 50 anos sobre o célebre jogo da Parada de Cascais e a maioria dos intervenientes (alguns deles simpatizantes do Belenenses) esteve presente. Ali e naquele dia, mais que nunca, se honraram os autênticos pioneiros do futebol português.

De permeio, novas melhorias: o campo de treinos foi arranjado de forma a permitir competições oficiais das categorias inferiores de futebol, bem como a prática de outras modalidades desportivas; foi construída à volta do campo uma vala para escoamento das águas da chuva; foi aberto um furo artesiano (de 36,42 metros), para abastecimento de água para as regas e abastecimento dos balneários...

Estava feito um estádio de categoria internacional!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

SÉRIE: Cinquentenário do Estádio do Restelo - Capítulo I - 1ª parte

Capítulo I: Antepassados do Estádio do Restelo
1ª parte: da praia ao Campo do Pau de Fio

Antes de recordar o historial do Estádio do Restelo, desde a sua planificação e construção até aos dias de hoje torna-se incontornável fazer referência aos espaços que o precederam.

Quando decidiu erguer o novo estádio, o Belenenses era já uma colectividade estabelecida com singular grandeza no panorama do desporto nacional, revelada não só em proezas atléticas mas também – e precisamente – na edificação de um outro campo, dos mais emblemáticos e pioneiros recintos da primeira metade do Século XX: as Salésias.

Ao abordar essa «pré-história» do Restelo, portanto, tratamos de evocar um notável legado de sonhos e símbolos – no fundo, uma identidade amadurecida e magnífica – bem como um rol de quase incontáveis adversidades, cuja superação custaria incansáveis labores, mas sublimaria uma inquebrantável vontade. De tudo isso o Restelo não foi o princípio. E, como veremos futuramente, também não foi o fim. Foi herdeiro de cores e amores, mas também de dores…

Belém foi o berço lisboeta do futebol popular. Era não só um local privilegiado para a sua prática, mas propiciava a sua conversão em espectáculo-fenómeno cativante de massas, capaz de congregar ruas e bairros inteiros, despojados de qualquer distinção de classes ou níveis de instrução.

Tudo começou na praia, pois claro, não fossem os nossos os «rapazes da praia» (embora inicialmente de forma trocista). Pouco após o primeiro jogo de «foot-ball» em Portugal continental (promovido pelos irmãos Pinto Basto na Parada de Cascais em 1888) surgiram as primeiras disputas nos areais do Restelo e Pedrouços. O jogo ganhava raízes também na Casa Pia, instituição pioneiríssima na educação física.
Em 1904 foi fundado o primeiro grande clube de futebol de Belém, o Sport Lisboa, que treinava nos terrenos do antigo hipódromo e das Terras do Desembargador, embora cada vez mais furtivamente. O hipódromo, embora já abandonado para o seu propósito inicial (as corridas de cavalos), era frequentemente utilizado para outros fins que prejudicavam não só a realização dos jogos como as próprias marcações do «foot-ball»: ali ensaiavam-se os primeiros vôos a motor, as primeiras corridas de ciclismo (e depois automobilismo); faziam-se exercícios de artilharia e desfilavam a cavalaria e os lanceiros perante dignatários e realeza estrangeira; de quando em quando, um concurso hípico.

Desta forma o Sport Lisboa remeteu-se então às Terras do Desembargador, também conhecidas como Campo das Salésias, por serem fronteiras ao Convento (embora o acesso se fizesse a partir da Calçada da Ajuda). Era «campo», não pelo futebol, mas por ser à época o campo de parada do quartel de cavalaria ali próximo (hoje entremuros, nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia)… circunstância que levaria o Sport Lisboa a abandonar precocemente o seu último reduto em Belém, por decisão do próprio Ministério da Guerra. Aos militares não agradavam as intromissões, ajuntamentos consideráveis e, não raras vezes, desordens. Uma boa parte dos jogadores do Sport Lisboa também via com bons olhos a saída das Salésias, pois o terreno tornava-se penoso para jogo (abundavam as covas e desapareciam constantemente as marcações) e as condições gerais eram pobres. Esgotaram-se assim as hipóteses de contar com um campo próprio em Belém e «exilou-se» o Sport Lisboa para outras paragens, entre lamentos e saudades.

Vivia-se a euforia pelo fim da Iª Guerra Mundial quando em 1919 um grupo de jogadores de Belém, cansados de serem a nata dos «outros», resolveram fundar o Clube de Futebol «Os Belenenses»: verdadeiro clube dos belenenses. Começaram por treinar nas Terras do Desembargador (muito brevemente) e logo depois numa nesga de espaço junto à Praça Afonso de Albuquerque (onde, num banco do jardim, haviam decidido fundar o clube).

Devido à súbita e inesperada afluência (de candidatos a jogadores e de público), cedo tomaram novo «campo», logo ao lado, mais para o meio da Rua Vieira Portuense (anexo ao espaço do antigo mercado), bem em frente do casario onde seria instalada a primeira sede, como ainda hoje se testemunha em placa alusiva. Nasceu assim o «Campo do Pau de Fio», assim chamado porque estava ali «plantado» um poste telegráfico, junto à linha divisória do terreno de jogo.

Desde logo se abeirou o povo de Belém para ver o seu novo clube, à volta do campo, por debaixo das colunas e nas varandas das casas. Numa delas até o Presidente da República (Manuel Teixeira Gomes) assistiu a treinos e jogos do Belenenses. Foi ali que o Belenenses exibiu o seu primeiro troféu, a prestigiada Taça dos Mutilados de Guerra. Também ali vicejou o ecletismo do Clube: nas celebrações do 2ª aniversário já se realizavam grandes provas de atletismo e ciclismo… e demonstrações de boxe! Pitoresco, era também o primeiro «vestiário»: a própria casa da família de Artur José Pereira (principal fundador), na Rua do Embaixador.

No entanto e com vista à participação regular no Campeonato de Lisboa (na altura a competição mais importante do País), o Campo do Pau de Fio não reunia as condições necessárias... pelo que o Belenenses passou a realizar os jogos oficiais em campo emprestado: o Stadium do Lumiar.

Mais tarde, em 1924, uma coligação de clubes representados na Associação de Futebol Lisboa levou esta a determinar que aquelas colectividades que dispunham de campos próprios (onde se incluíam as da dita coligação) não os poderiam ceder graciosamente a outros emblemas para efeitos de campeonatos. Directamente visados eram o Belenenses e o Casa Pia (também de Belém e na altura Campeão de Lisboa em título), que assim corriam o risco de não poderem participar no Campeonato de Lisboa. Isto embora o Presidente da Associação fosse Virgílio Paula, ilustre belenense desde os tempos da fundação, a quem a integridade não permitia senão aceitar a vontade unânime dos delegados.

O Casa Pia não demorou muito até inaugurar (no mesmo ano) um campo cedido pela própria instituição, a que se chamou «Campo do Restelo». Para a sua inauguração foi convidado o Belenenses, estando em disputa – apropriadamente – a «Taça Belém» (caprichosamente a contenda terminou em empate, pelo que o troféu ficou por entregar). Note-se que este Campo do Restelo ficava junto à parte ocidental das traseiras do Mosteiro, não coincidindo com qualquer parte do que viria a ser o complexo do Estádio do Restelo.
O Belenenses, por sua vez, passou a ter de alugar o campo do Lumiar, isto enquanto não encontrasse campo próprio e terminasse de vez com a «maldição» de não poder jogar em Belém. E foi por lá, longe de Belém, que o Belenenses conquistou o seu primeiro grande título, o Campeonato de Lisboa, a 21 de Março de 1926 (vitória por 1-0 frente ao Sporting).

Perante o imbróglio colocava-se a hipótese de apresentar o Campo do Pau de Fio como campo próprio. O tesoureiro do Clube logo esclareceu: «Não, isso é quase impossível. Mas nos já deitámos as nossas vistas para o magnifico campo das Salésias». O Belenenses cobiçava já uma faixa de terreno, no coração do seu bairro. Tentou. Após várias insistências, o Governo acedeu. Através de decreto datado de 15 de Dezembro de 1926 foi finalmente estabelecido um acordo, sob os auspícios do Ministério das Finanças:

Considerando que ao Governo da República não pode ser alheio o interesse pela causa desportiva do país; Considerando que o Clube de Futebol "Os Belenenses" por várias vezes tem pedido a cedência de terrenos anexos ao Asilo Nun’Alvares [anteriormente denominado Refúgio e Casas de Trabalho e proprietário do antigo edifício do Convento das Salésias e respectiva cerca] para ali instalar o seu campo desportivo; Considerando que em nada o referido asilo é prejudicado por tal cedência: Em nome da Nação, o Governo da República Portuguesa, sob proposta do Ministro das Finanças, decreta para valer como lei o seguinte:

Artigo 1º: É cedida a título precário ao Clube de Futebol "Os Belenenses", com sede na Rua Vieira Portuense, nº 48- 1º, em Belém, desta cidade de Lisboa, uma faixa de terrenos, constante da planta anexa ao processo arquivado na respectiva Repartição, para nela serem instalados a sede e o campo de desporto do referido clube.

Artigo 2º: Reverterá para a posse do referido Asilo a referida faixa de terreno, com todas as obras e benfeitorias ali feitas, e sem indemnização, quando deixar de ser utilizada para o fim a que agora é destinada.

Artigo 3º: O Clube de Futebol "Os Belenenses" entregará ao Asilo Nun’Álvares a percentagem de 6 por cento sobre a receita bruta de todos os desafios de futebol ou festas desportivas, ali realizadas, bem como a receita líquida duma festa desportiva anual.

Artigo 4º: Fica revogada a legislação em contrário.


Deve assinalar-se desde já que a faixa de terreno em causa (que não coincidia com o campo primitivo do Sport Lisboa), enquanto por lá esteve o Belenenses, nunca deixou de ser utilizada para o fim a que foi destinada… bem pelo contrário.
Mas prossigamos com esta grande vitória de 1926, em tudo devida ao esforço do Presidente de então, o Ten. Coronel Luís de Moura.

O Belenenses não perdeu tempo. Logo a 27 de Janeiro de 1927 reuniu uma Assembleia Geral Extraordinária para proceder à ratificação do acordo e aprovação do plano de trabalhos. Surgiram dúvidas. Sentindo um voto de desconfiança, a Direcção apresentou demissão. Porém, em 9 de Março, decorreu nova reunião da Assembleia Geral, dessa vez com sucesso e aclamação (incluindo a recondução do elenco directivo). A título de curiosidade, eram estas as contas previstas:

Custo das obras: 250 mil escudos
Receitas:
Quota suplementar de 30 escudos (valor mínimo de 1000 sócios): 30 mil escudos
Emissão de títulos: 30 mil escudos
Disponibilidades: 40 mil escudos
Empréstimo externo: 150 mil escudos

Deitaram-se as mãos à obra logo a partir do dia 5 de Abril seguinte. O contrato inicial, celebrado com os empreiteiros António Vicente Ramos e Bruno José dos Santos, implicava uma despesa de 92 mil escudos. Em 20 de Maio, nova empreitada, com despesa de 12 mil escudos. No total foram gastos 104 mil escudos.

Em declarações ao jornal «Os Sports», na edição de 5 de Setembro, o Presidente do Clube antevia já com entusiasmo: «Com a inauguração do campo e a instalação da sede, uma e outra coisa funcionando no coração de Belém, os progressos do Clube hão-de acentuar-se. O Belenenses tem uma característica bairrista que é interessante e que não se deve perder».
O Belenenses extravasava já os limites do seu bairro, mas não sendo «clube de bairro», cuidava do seu fervor «bairrista», na melhor e mais castiça acepção possível. No fundo, cuidava da sua identidade. Dias antes daquela entrevista (3 de Setembro) havia sido inaugurada uma concorrida «Feira Franca» no Largo de Belém, com vista à obtenção de fundos. A melhor prova daquelas palavras.

Entre trabalhos e canseiras, a equipa de futebol continuava a ganhar também em campo, ainda que alheio: o Belenenses conquistava no Lumiar o seu primeiro Campeonato de Portugal!

Quanto ao Campo do Pau de Fio, curiosamente, voltaria a ser campo de jogos, mas da FNAT (antecessora do Inatel), desde o início dos anos 40 até à inauguração do seu estádio – o actual «1º de Maio» – em 1959.